QUESTIONS SÃO PAULO HARDCORE (ENTREVISTA POR FOX)
PLASTCFIRE
AYAT AKRASS
ALTO TEOR DE REVOLTA
NUESTRO SANGRE
BANDA STARLLA
BANDA LARHA
 
QUESTIONS SÃO PAULO HARDCORE (ENTREVISTA POR FOX)
 
 
Bom, ao contrário das outras entrevistas a banda Questions não precisa de nenhuma apresentação, quem ainda não conhece, faça-me um favor. Em particular primeiramente é uma honra, nós da Necrose já estávamos a um bom tempo estudando a idéia desta entrevista, e eu em particular já acompanho o trabalho de vocês a alguns anos e antes de entrar em contato, estava dando uma olhada no vídeo da "European Tour 2007", algumas coisas chamam atenção no vídeo. Não estamos acostumados com bandas que fazem tour pela Europa e deixam registro, tal como vocês fizeram, e o mais interessante é que não há aquela pretensão maior de querer mostrar o potencial da banda, e sim a simplicidade e a humildade, quando, por exemplo, nos primeiros momentos do vídeo, os integrantes deixam claro tamanha surpresa e entusiasmo de um sonho realizado, mesmo sendo com a grana do bolso e no sufoco, e isso é bastante contagiante, falem um pouco sobre isso?
Pablo: Primeiro obrigado pelas palavras. Para nós é sempre um prazer trocar idéia com o pessoal que está de alguma maneira ativo na cena.
Um resumo bem rápido desses nove anos de Questions: Somos amigos do bairro, crescemos no Butantã em São Paulo, sempre ouvindo hardcore pesado e metal. A proposta da banda desde o início é exaltar valores que creditamos como respeito e amizade, mas também com uma pegada crítica, tentando refletir sobre as injustiças desse mundo e incitar na molecada uma vontade de agir, de correr atrás dos seus ideais.
Tudo isso embalado no velho espírito "faça você mesmo". Não ficamos esperando as coisas caírem do céu, estamos sempre perseguindo o próximo objetivo. Na verdade, como acho que está bem claro no vídeo, essa viagem para a Europa realmente foi um marco não só na história da banda, como na nossa vida. Foram 37 shows em 17 países. É algo que batalhamos muitos anos para que acontecesse e, quando finalmente tivemos a oportunidade de ir, foi muito emocionante. Uma vitória pessoal de cada um de nós. E como sabíamos que ia ser assim, já saímos daqui com a intenção de registrar o maior número de momentos possível. Gravamos horas e horas de vídeo, posso dizer que temos material para mais um monte de episódios como esses que já estão no ar (para quem ainda não viu, eles estão em nosso canal do Youtube: http://www.youtube.com/user/questionstv).
Futuramente isso tudo pode virar um Dvd, mas não está decidido ainda. E na hora da edição foi como você falou, quisemos mostrar a realidade da nossa viagem sem grandes firulas. Estávamos lá, quatro caras do terceiro mundo andando por praticamente todos os países da Europa, dividindo a van com uma banda da Holanda e depois com outra da Alemanha e com dois motoristas húngaros. Nem precisa dizer que tem um monte de situações bizarras, engraçadas, outras meio tensas, enfim, todas muito diferentes da nossa vida "normal" aqui no Brasil. Estamos editando os vídeos pensando mais nesse lado, sem focar tanto nos shows. Acho bem legal quando você fala que é contagiante, porque para nós foi uma puta conquista mesmo, não temos vergonha de falar, e se outras pessoas se identificam, a gente se sente bem com isso.


A internet vem facilitando muito pra todos nós, gente como eu envolvida com a cena, mas que não tem tanta disponibilidade para estar viajando ou junto dos amigos, e acaba acompanhando a distância, mas, de uma certa forma também algumas coisas podem ser mascaradas, conheço pessoas que vibram com a cena Paulista e alguns que dizem ser uma das melhores no Brasil, outros por sua vez diz ser completamente diferente, ser uma cena dividida e preconceituosa, isso existe? Qual a relação da banda com a cena Paulista num todo?
Quando a gente começou a banda e decidimos que iríamos colocar "união e respeito" no nosso pano, já tínhamos bem claro essa maneira de encarar as coisas que carregamos até hoje, ou seja, seguir o nosso caminho sem querer atropelar ninguém. E desde o início também não fazíamos, e até hoje não fazemos, parte desta ou aquela "facção" do hardcore. Nunca ficamos esperando a ajuda de ninguém para fazer as coisas acontecerem, para nós. Sempre achamos que devíamos perseguir a sonoridade que a gente gostava, fazer letras e criar uma identidade para a banda em cima dos valores que a gente acreditava e acredita até hoje. E sempre tentando fortalecer a cena, tanto que uma das nossas primeiras iniciativas, com pouco mais de um ano de banda, foi fazer um documentário sobre algumas bandas hardcore de SP (o SPHC Scene, lançado pela Highlightsounds em 2001), uma iniciativa pioneira onde a gente já dizia a que veio.
Ao mesmo tempo sempre tivemos uma boa relação com várias pessoas diferentes na cena, muitos amigos que curtem punk, metal, do bêbado ao straight edge, nunca julgamos as pessoas por essa ou aquela escolha. Se o cara nos oferece amizade com sinceridade, não temos porque não aceitar.
Mas preconceito, intrigas e falsidade existem em todo o lugar, e o meio hardcore infelizmente não escapa disso. Cabe a nós fazer o nosso sem se preocupar com isso e dar valor às pessoas que correm com a gente e acreditam no que estamos fazendo.
Nesses anos de estrada já tocamos em todo o tipo de evento aqui em SP, dos shows organizados na periferia
pela molecada até várias edições de festivais maiores como o Kool Metal, Verdurada e Libfest, de festivais grandes feitos com o apoio da prefeitura como o Street Rock até algo mais "corporativo" como o Gás Festival. Só não participamos daqueles esquemas em que os organizadores obrigam as bandas de abertura a vender ingressos, isso nós não concordamos. Aqui sem dúvida é a cidade onde acontecem mais shows, tem mais gente envolvida, mais lugares para tocar etc, mas podemos construir algo muito melhor, e estamos tentando fazer a nossa parte. Por isso sempre tomamos a iniciativa de organizar os nossos próprios shows, o que fazemos algumas vezes por ano, e sempre tentamos chamar bandas com quem temos afinidades, que compartilham das mesmas idéias. O Questions é uma ferramenta para tentar unir pessoas, não o contrário.
Sobre o posicionamento político da galera, obviamente o hardcore tem nas suas raízes uma identificação com
um pensamento político progressista, solidário, mas não acho que seja o nosso papel levantar a bandeira de
qualquer organização, até porque não somos envolvidos com nenhuma. Algumas bandas têm uma relação
forte com causas como o vegetarianismo, a defesa dos animais ou outras. Acho que é válido se é verdadeiro,
mas essa não é a nossa praia.


Qual a maior dificuldade da banda Questions hoje? Todos tem seus respectivos trabalhos, ou vocês já conseguiram se manter com a banda? Existe uma possibilidade pra vocês hoje de realizar esse sonho, que todos nós que temos banda, temos de conseguir viver daquilo que gosta, ou seja, da música?
Pablo: Ser músico de profissão no Brasil, seja qual for o estilo que você toque, não é uma coisa fácil de conseguir. Cara viver de hardcore pesado nem pensar. Pelo menos não conheço ninguém que se sustente só disso. Cada um do Questions tem o seu corre paralelo e sempre foi assim. É claro que sempre tentamos melhorar as condições para a banda tocar e viajar, mas infelizmente não dá pra contar só com a grana dos shows para sobreviver. Mas isso nunca foi uma surpresa para nós, sabíamos que ia ser assim desde o começo, porque são as condições econômicas do país. Ainda mais se você não está disposto a ceder em nada para fazer o seu som ser "mais comercial" ou "mais vendável", como é o nosso caso.
Quando colocamos o nome do primeiro disco "Resista!" estávamos justamente pensando nessa dificuldade em conseguir realizar os sonhos nessa vida, como ser músico, por exemplo. É preciso resistir e lutar para conseguir ter a vida que a gente quer. É preciso não se acomodar e levar a vida do jeito que as pessoas esperam. Essa pressão social para ter dinheiro, carro, bens, emprego, status. Sentimos isso na pele todos os dias e quanto mais os anos passam mais ela fica maior. Mas é necessário ter uma válvula de escape, uma coisa que você faz pela satisfação e não pelo dinheiro. Para mim o Questions é isso, uma banda de amigos em que o único compromisso é fazer algo em que a gente acredita e tenha prazer em fazer. Porque se fosse pela grana a gente não tinha nem começado!
Agora dizendo isso não quero desestimular a molecada, pelo contrário. Cabe a nós batalhar mais e mais para que a cena exista, para que as bandas toquem. Quanto mais shows, zines, blogs, etc, mais gente vai ter acesso às bandas e mais chance elas vão ter de se sustentar um dia. Se não temos uma cena em que as bandas podem se "profissionalizar" ainda, devemos é tentar fazer com isso aconteça e não ficar reclamando que "aqui é uma merda e nunca vai mudar". Bom, nós estamos aqui até hoje, tentando fazer a nossa parte com a mesma teimosia de quando começamos.


Tem um video do MadBall que o Freddy está usando a camisa do Questions e vocês fizeram um evento que houve a participação do Derick Green (Sepultura), como é, e como se dá, esse vinculo com a banda? Fale também dos materiais já gravados e qual o próximo passo da banda? Quais as expectativas pra esse ano de 2009?
Pablo: O Edu teve a oportunidade de trocar uma idéia com o Freddy em 2005, num show em Londres, nesse dia ele acabou usando a camisa do Questions para tocar, o que já foi um puta orgulho para nós. Desde então a gente viu que os caras têm uma pegada hardcore de verdade, que é tratar todo mundo igual, ter consideração com quem vem trocar idéia. Então tivemos um contato mais próximo com o Madball em 2006, quando a Liberation nos convidou para abrir o show deles. Os caras, em especial o Freddy e o Hoya, nos deram muita força e ficamos mais próximos ainda, tanto que tocamos juntos de novo em 2007 e eu acabei fazendo o clip deles da música "100%". Já com o Derick é mais natural, primeiro porque já tocamos com o Sepultura e depois ele mora em São Paulo, e vez por outra a gente se tromba em algum rolê. Nesse dia no Inferno a gente o convidou para fazer Troops of Doom e ele se empolgou na hora, foi animal!
Sobre nossa discografia estamos seguindo assim:
-demo k7 “We Shall Overcome” de 2000,
-CD Single “Strength!” de 2001, esses 2 totalmente raros,
-primeiro álbum “Resista!” lançado pela 53 HC em 2004, esse acho que ainda dá para conseguir direto com a 53 HC,
-segundo álbum “Fight For What You Believe” lançado pela Liberation em 2007 - esse está disponível
E temos também o Documentário “São Paulo Hardcore Scene” lançado pela Highlight Sounds em 2001 e mais uma infinidade de clipes e imagens, boa parte delas você acha no http://www.questions.com.br
E os planos para 2009 são continuar tocando, fazendo shows pelo Brasil e quem sabe mais alguns países da América do Sul, gravar mais um disco ainda no primeiro semestre e se tudo der certo mais um tour na Europa. As expectativas são as melhores possíveis.


Legal, isso é super importante, é o que falta realmente dentro da cena, respeito. Bom, como nosso espaço por aqui é curto, fugindo do tradicional agradecimento que toda banda faz na ultima pergunta de toda entrevista, (não que o Questions não tenha que agradecer) deixe pra galera algo considerável, que venha de um pensamento comum entre vocês.
Pablo: Bom mano, acho que a nossa principal característica positiva é a cabeça dura. Por que estamos insistindo com essa banda há vários anos pelo mesmo motivo desde o começo: fazer algo em que acreditamos de verdade. Então o mais importante não é se a banda "vira" comercial, mas se a gente se sente bem em ensaiar, tocar, gravar, fazer vídeo, atualizar site e fotolog; enfim, manter a parada viva. Enquanto tudo isso fizer sentido para nós, vamos continuar ai na batalha, tentando levar o Questions cada vez mais longe, mesmo sabendo que nunca vai ser fácil, pelo contrário.
Em minha opinião a responsabilidade da molecada é sempre tentar melhorar as coisas, montar bandas, shows, festivais, sites, se organizar para fortalecermos a cena. Isso só acontece quando tem um bando na correria, de cabeça dura, como a gente tenta fazer. E como você está fazendo por ai. Ficar sentado reclamando e metendo pau nos outros que fazem as coisas não vai ajudar em nada.
É isso, para encerrar vamos de clichê: muito obrigado pelo espaço, parabéns pelo trabalho até uma próxima! União, respeito, amizade! O Básico.


Site:  http://www.questions.com.br
E-mail:  SHOW.3MUNDOS@GMAIL.COM

 
 
Autor:  GILSON FOX (WERMUT / EDITOR XCONTRAPONTOX.BLOGSPORT.COM
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